segunda-feira, 26 de março de 2012

Aquele fio “negro” que une Dickens a Chesterton contra o ceticismo

Por Giuseppe Bonvegna
*Extraído do IlSussidiario.net, do dia 23 de março de 2012. 
Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Disponível na internet
Também para o As aventuras do S.r Pickwick (1837), o primeiro romance de Charles Dickens (1812-1870), que comemora, este ano, o ducentésimo aniversário de nascimento, vale a recomendação segundo a qual é sempre melhor ler o prefácio apenas depois de ter lido o romance, para não se perder a beleza da descoberta da trama.

No caso de As aventuras do S.r Pickwick, é preciso porém acrescentar que, mesmo depois de ter lido as mais de mil páginas das quais é composto, se descobre que uma trama verdadeira não fica evidente e que o prefácio poderia, pelo contrário, ser útil apenas para o fim ao qual comumente não é destinado (o de descobrir se, de verdade, há uma trama); tanto mais que (pelo menos na edição italiana da Oscar Mondadori) o prefácio é assinado por uma pessoa que, a respeito de tramas, seguramente era um grande conhecedor: Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), o grande romancista, ensaísta e escritor de policiais, que se converteu ao catolicismo em 1922, e de quem, em 2011, foi publicada, pela Editora Marietti, a primeira edição em italiano da obra Appreciations and Criticism of the Works of Charles Dickens, uma coletânea de seus escritos sobre Dickens publicada por ele em 1911 (Una gioia antica e nuova: scritti su Charles Dickens e la letteratura. Organizado por Edoardo Rialti).

Para compreender porque esta publicação constitui uma contribuição importante para a compreensão não apenas de Dickens e de Chesterton, mas também da literatura inglesa vitoriana e do século XX, é preciso retomar nas mãos a obra Svelare il mistero (Revelar o mistério, sem tradução para o português, publicado em 2000, pela editora Gribaudi de Milão), uma coletânea de escritos de Chesterton sobre os romances policiais. Nesta obra, Chesterton vê em Dickens o precursor (junto com Edgar Alan Poe e Robert Louis Stevenson) do gênero policial criado no final do século XIX por Arthur Conan Doyle (1859-1930) com Sherlock Holmes.

Se de fato, como é explicado na nova coletânea chestertoniana sobre Dickens, Chesterton gostava da obra literária de Dickens desde criança, então não é difícil captar todo o alcance da sua afirmação contida num artigo de 1901, referido na antiga coletânea da Gribaudi: Chesterton sustentava que, comparado a Conan Doyle, somente os personagens de Dickens (particularmente os personagens de As aventuras do S.r Pickwick) tinham a capacidade, como Sherlock Holmes, de “romper o casca do livro da mesma maneira que o pintinho quebra a casca do ovo”.

Dickens, portanto, pode ser entendido como precursor do romance policial, visto ter sido um dos primeiros a introduzir, no romance, o expediente da reviravolta na trama através da revelação gradual da história de maneira a deixar (no início) o protagonista de lado e fazê-lo ir entrando de maneira inesperada apenas depois que os elementos do entorno da trama forem expostos.

Todo este procedimento, que torna o romance vitoriano de Dickens (ou “à Dickens”) seguramente diferente (e mais convincente) se comparado com outros contemporâneos seus italianos e franceses; significa, porém, tornar a história também mais aderente à vida e levar-nos, portanto, a falar da fé como método de conhecimento, mesmo se isto (pelo menos a primeira vista) pudesse parecer estranho.

O que, de fato, salta aos olhos, lendo exatamente As aventuras do S.r Pickwick, não é a descrição dos problemas sociais e muito menos uma visão religiosa, mas o fato de que o prazer de seguir o desenvolvimento dos acontecimentos narrados não apenas não é diminuído, mas cresce exatamente por nunca saber exatamente, no decorrer do romance, qual é o motivo pelo qual os componentes do “clube”, do seu fundador – Samuel Pickwick – aos “membros correspondentes” – Augustus Snodgrass, Tracy Tupman, Nathaniel Winkle –, andem por Londres e pelo sul da Inglaterra em busca de aventuras com as quais, depois, invariavelmente acabam topando, saindo delas sempre (sobretudo o S.r Pickwick) transformados.

Há então uma pergunta que somente esta cômica falta de explicações consegue manter aberta até a última página daquele que Chesterton dizia ser não um romance, mas um relato mitológico, e para a qual nem mesmo Chesterton foi capaz de fornecer uma resposta “barata”, limitando-se a sustentar que o mistério que envolvia as motivações do S.r Pickwick era uma alternativa ao ceticismo: “Com acompanhamento de tochas e trombetas, como um convidado de honra, o principiante é pego por uma armadilha da vida. O cético, pelo contrário, fica preso do lado de fora”.
Primado do fato sobre a ideia, da realidade sobre a utopia, do reconhecimento do limite humano como criatura sobre o perfeccionismo, de uma confiança última na realidade sobre a pretensão de enjaulá-la nos esquemas de um conhecimento calculado e não vital: trata-se de um modelo de razão que, no âmbito da filosofia inglesa, havia dado vida à reação contra o ceticismo empirista da segunda metade do século XVIII por Thomas Reid (1710-1796), através da filosofia do common sense, e que, nos mesmos anos de Dickens, animava a doutrina do conhecimento do Beato John Henry Newman (1801-1890), um dos mestres inspiradores de Chesterton.

As aventuras do S.r Pickwick, então, não é (ou, pelo menos, não é apenas) um relato cômico e, neste ponto, é possível também dizer que muito menos as sagas policiais chestertonianas do Padre Brow ou de Mister Pond sejam apenas contos policiais.

É o mesmo primado da realidade sobre a ideia, presente em Pickwick, que dá fundamento para as investigações de Padre Brown e de Mister Pond e que introduz a prova moral como indício mais válido do que a prova objetiva, porque faz referência à totalidade do ser humano, cujas motivações do agir, longe de se dividirem segundo o binômio racional/irracional, às vezes respondem a lógicas mais complexas, nas quais não está em jogo nem a lógica abstrata nem a falta de pensamento, mas um modelo diferente de razão.

Se então Padre Brown e Mister Pond chegam a descobrir a verdade de um delito, isto não acontece porque tenham conseguido uma quantidade maior de informações ou porque tenham analisado melhor o caso, mas porque observaram mais profundamente, dando-se conta de particulares que somente uma razão para a qual interesse o coração humano é capaz de captar.

“Dou muita importância a ideias vagas”, diz Padre Brown no conto “O estranho crime de John Boulnois” que está no livro A sabedoria do Padre Brown (Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1986): “As coisas que ‘não são evidentes’ são as que me convencem. Julgo a impossibilidade moral como a maior de todas as impossibilidades” (p. 230).

quarta-feira, 21 de março de 2012

O catolicismo de Chesterton

Por Waldemar M. Reis
Fonte: Tribuna da Imprensa , 5 de Setembro de 2003
Disponível no site Vertatis Splendor

Comentar o `São Francisco de Assis' de G. K. Chesterton num jornal é, no mínimo, desconfortável. Pode-se incorrer, segundo o autor, na `imperfeição de contar a história pelo fim', sem dar a conhecer as circunstâncias na origem do fato em questão. Trata-se, para ele, de uma imperfeição característica da linguagem jornalística, largamente adotada pelos historiadores - sua ênfase é nos ingleses - durante século XIX.

Com isso introduz um dos escorços históricos mais ágeis, mais brilhantes, sobre o período desde a oposição da doutrina cristã ao paganismo até o século XII, para que se possa experimentar, com a leitura do seu livro, a gênese mística do santo, para que se entenda o tom do diálogo de Francisco com a Igreja do seu tempo. Mas não lhe basta o exercício de relacionar causas e efeitos para trazer ao leitor uma compreensão de costumes que o tempo se encarregou de transfigurar. Para tal é necessário ainda que, como autor, se afeiçoe ao tema escolhido.

É esse o estado de espírito no qual Chesterton nos apresenta o legado franciscano: o de alguém profundamente apaixonado. Para compreendê-lo, não incorrendo na mencionada 'imperfeição jornalística', é necessário ao menos lembrar a circunstância na qual o livro foi escrito, sendo impossível oferecer aqui maiores detalhes de uma vida de grandes produtividade e imaginação literárias. A paixão chestertoniana é a fé católica, à qual se convertera havia cerca de um ano, assim sacramentando a vocação do autor para o questionamento das desigualdades entre os homens.

Desse modo a transformação por que passa o filho do comerciante Bernardone, na Assis do século XII, emblemática da sofrida pelo próprio Chesterton em pleno século XX, é descrita como o verdadeiro estopim do Renascimento, como a verdadeira Reforma que o autêntico espírito cristão reclamava para tornar-se outra vez merecedor de sua origem. Até Francisco a Igreja Católica tratara de fazer jus à universalidade a que se propunha desde o nome opondo-se de modo frontal aos cultos pagãos da natureza.

Para consegui-lo incorreu em desmedidas que a confinaram a prolongada penitência, como o atestam as obras de Santo Agostinho e São Bento. Com Francisco o misticismo cristão reincorpora a natureza e seus processos (antes partes dos ritos pagãos) de modo a reencontrar, frente ao espelho, a imagem de Cristo. O voto de pobreza do santo é, para o inglês, sinal da confiança no desígnio celeste que nos confina no mundo: Deus provê sempre, cabendo-nos desfrutar de Sua misteriosa magnanimidade.

Aos olhos do homem comum, o 'São Francisco de Assis' de Chesterton enfatiza a irracionalidade como elemento determinante na consecução da beatitude. O radicalismo dos atos do santo, incomensurável ainda para nós, entretanto, é mostrado como sumamente conseqüente, como desafio perene à audácia de alguém se dizer cristão. Como autoproclamado 'jongleur de Dieu' (malabarista de Deus), Francisco se apresenta de ponta-cabeça para o mundo com a naturalidade de quem nasceu para assim ficar e sem, contudo, censurar quem escolheu conservar os pés sobre a terra. O livro é um espetáculo encantador de malabarismo concebido como testemunho da fé de um gênio cujo personagem partilha consigo - e conosco - intimidade semelhante à do tato.

Em 1933, dez anos depois desta, apareceria outra hagiografia, o 'São Tomás de Aquino'. Nesse novo livro Chesterton se mostra, como se fosse possível, mais maduro. Refiro, assim, o sentimento católico, não o estilo, sempre denso, mas leve, e cujos ecos se fizeram escutar na obra do não menos genial argentino Borges. A fé do escritor se apresenta ali renovada pelo entendimento, sem que abra mão por um só instante do imprevisível e do miraculoso, esperados num escorço biográfico de um santo.

A comparação com o 'São Francisco de Assis' é inevitável e o autor é o primeiro fazê-lo. Se neste livro o foco está no humanismo de senso comum que marcou a vida ascética de Francisco, o 'São Tomás de Aquino' objetiva mostrar como são fundamentados os mesmos postulados humanistas sob o prisma da filosofia aristotélica, reabilitada pelo santo em plena Idade Média. Conhecendo embora as armadilhas do pensamento sistemático, como os raciocínios infindáveis, São Tomás envereda por todos os que lhe estão ao alcance sem abdicar jamais da condição sensível de que somos dotados desde o útero.

Essa reivindicação tomista da sensibilidade é seguida à letra no trabalho chestertoniano, cuja textura, indefinível tanto como romance quanto como ensaio, reserva prazer crescente à leitura. Nele abundam objeções ao ceticismo bem como ao liberalismo inglês, enquanto formas de coibir tanto a experiência mística quanto o bem-estar de que devem desfrutar todos os homens. A obra foi imediatamente louvada, desde o seu aparecimento, pelos estudiosos do tomismo do início do século passado, como o francês J. Maritain. Acrescentar-lhe aqui outros elogios é tarefa de duvidosa utilidade.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Chesterton, eterno amigo do homem

Diego G. da Silva
Editor e colaborador do site Chesterton Brasil 
Publicado na Revista Católica In Guardia, ano I, n.º 3, dezembro de 2011

Nosso amigo Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) sempre surpreendeu seus adversários pela suas respostas paradoxais entrelaçadas de genial senso comum. Sua visão da realidade era aguçada a tal ponto que a comparação com Tomás de Aquino (1225, 1274) não poderia ficar apenas no porte físico. Chesterton tinha a alegria angelical de saber que se Deus criou todas as coisas, Ele, portanto, mandaria e controlaria tudo. Não o preocupava as teorias evolucionistas efervescentes em sua época, e que ainda hoje é dogma nas escolas. Sua descrença em relação ao evolucionismo se dava pelo simples fato dele saber que "se a evolução simplesmente significa que algo positivo chamado macaco transformou-se lentamente em algo positivo chamado de homem, então ela é inofensiva para o mais ortodoxo; pois um Deus pessoal poderia muito bem criar coisas de modo lento ou rápido, especialmente se, como no caso do Deus cristão, ele estivesse situado fora do tempo."1

A fé estava indissociável da vida dele. Como de fato está em todos nós. Temos ou não temos fé. Mas sua ausência faz toda a diferença. A ausência de fé é uma característica marcante do homem moderno. Entorpecido e doutrinado pelo ceticismo, materialismo e hedonismo. Desde criança os homens têm perdido o sentido de suas vidas. O relativismo, característica que marca tanto o tempo de Chesterton quanto o nosso, tem escravizado os pensamentos impossibilitando-os de navegarem por mares que, apesar de tempestuosos, possuem um - somente um - porto seguro que é visível ao longe por sua Cruz e pelo estandarte de Nossa Senhora eternamente fixados que servem como farol aos navegantes.

Chesterton sempre retornava à analogia do navegante que no afã de descobrir novas terras voltava ao mesmo território. No desejo de descobrir novos e refrescantes ares retornava ao mesmo lar. Ou, ao caso do homem que cansado de sua casa, vida e família, decide procurar um local melhor para viver e, ao dar a volta ao mundo, descobre o seu antigo lar. “Todo lugar na terra é o começo ou o fim, segundo o coração do homem.”2 Chesterton utilizava dessas analogias para nos demonstrar que somos muitas vezes esses homens que saem em busca do lar quando muitas vezes estamos nele e nem nos damos conta. 

Essas analogias tão recorrentes nas obras de Chesterton expressam com clareza o percurso espiritual deste ‘grande’ homem. Sua vida foi marcada pelo sincero e apaixonado desejo pela verdade. No bonde (peço a licença para me expressar assim) dos anglo-católicos Chesterton não titubeou ao pedir parada em frente à Igreja Católica. Ele foi pelas trilhas deixadas pelo grande beato Newman que apesar de todas as críticas e perseguições largou tudo, inclusive um futuro (garantido) promissor no Anglicanismo. Que mistério é este que orienta a vida dos grandes homens? Se analisarmos bem, veremos que o desejo sincero pela Verdade e a Humildade são como a Porta e Fechadura para um novo lar.

“Chesterton é um verdadeiro homo religiosus. Suponho que inumeráveis de seus leitores não se importem com religião. Sei que a qualidade “literária” de suas obras não se mudou depois de sua conversão ao catolicismo. Que desde então o olhar que ele deita ao mundo se tornou ainda mais profundo, mais alegre e mais seguro, que o seu coração e seu espírito foram ungidos e acesos pelo mistério da graça que sacramentalmente penetrou em sua vida. Eis aí uma coisa que só o cristão “interior” percebe, e que percebem, sobretudo aqueles que pessoalmente são atingidos pelo fluido sobrenatural de renascimento, irradiado pelo Chesterton católico.”3 

Os escritos de Chesterton são para nós hoje um remédio. São como um fôlego de racionalidade e bom senso que podemos nos servir para curar e proteger nossa razão dos tantos absurdos que vemos. “Nos seus livros pululam todas as coisas do mundo, mas em dança harmônica, no equilíbrio divino reconquistado, que só é possível em torno do centro místico da vida”.“4

Neste ano se encerram excelentes novidades que apareceram para os admiradores das obras de Chesterton. Pela primeira vez foi publicada a tradução de Hereges5; relembramos os 75 anos de falecimento de Chesterton6 e o centenário da obra Sabedoria do Padre Brown7, publicado em 1911. Comemoramos também o primeiro aniversário do site Chesterton Brasil8. São fatos que demonstram claramente que Chesterton é e será um eterno amigo daqueles que desejam a Verdade.





1 CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 58-59
2 Conto Homesick at home, do livro The Coloured Lands, Londres, 1938. Tradução de Francisco Barbosa de Rezende.
3 PFLEGER, Karl. Chesterton o aventureiro da Ortodoxia. Tradução de O. Durieux, O.F.M.. Rio de Janeiro: Stella editora, 1943. p. 25
4 Ibdem, (43)
5 Foi publicado pela primeira vez em português pela editora Ecclesiae. Tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo e Márcia Xavier de Brito.
6 Confira a matéria ‘Iniciativa brasileira recorda os 75 anos do falecimento de Gibert Keith Chesterton’, publicado no site ChestertonBrasil.org
7 Leia o artigo ‘O Centenário da obra A Inocência do Padre’, autoria de Diego Guilherme da Silva, publicado no site ChestertonBrasil.org

[i][i]8 Site brasileiro dedicado a promover a divulgação da vida e obra de Gilbert Keith Chesterton. O site foi inaugurado em dezembro do 2010 e completa um ano de existência. Os saldos são muito animadores, a contar pelo número de visitas de aproximadamente 40 mil neste 1º ano.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Por que Chesterton?


Diego G. Silva
Editor do Chesterton Brasil.org
Publicado originalmente na Revista In Guardia, ano I, n. 2, p. 54-55, out. 2011.
Confira mais sobre a Revista In Guardia aqui

Por que resgatar o pensamento de um escritor que morreu há 75 anos e mesmo tendo escrito mais de 4 mil artigos e mais de 80 livros tem poucas obras traduzidas para o português? Gilbert Keith Chesterton é, com certeza, um dos escritores mais injustiçados e esquecidos. Suas obras foram deixadas à margem e desconhecidas, diríamos sob suspeita. Tudo por um simples detalhe que não passa despercebido do leitor, como disse um periodista espanhol: Ele era católico.

De antemão é preciso esclarecer que a doutrina católica é indissociável das obras de Chesterton. Certa vez, um professor de Literatura Inglesa me questionou se eu queria fazer um estudo sobre o catolicismo na obra de Chesterton, ele disse que isto escapava de sua competência. Eu lhe respondi que não, mas que o catolicismo era indissociável de suas obras. E de fato o é. Basta a leitura de qualquer do seus livros, artigos etc. Se Chesterton às vezes  não se aprofunda explicitamente na doutrina católica, ele já dá um passo significativo ao abordar as questões sob o ponto de vista do senso comum, senso tão importante para um razão saudável aberta ao inquestionável, imutável e atualíssimo transcendente que está sempre acessível aos olhos da fé e da razão. 

Nascido no dia 29 de maio de 1874, Kensington, Londres, Chesterton foi batizado no Anglicanismo.  A fase de sua vida mais obscura (no sentido espiritual, poderíamos dizer) foi sua adolescência. Ele mesmo nos diz isso quando escreveu no livro Ortodoxia (1908), magistral e primorosa obra de ChestertonEu era pagão aos doze anos de idade e um perfeito agnóstico aos dezesseis.”.
Apesar de ter tido uma fase árida (ou noite escura, como poderia nos dizer os santos ao relatar o vazio da ausência de Deus) e ter tentando criar, como depois ele mesmo disse uma própria ‘ortodoxia’, se deu conta de que as ideologias em voga no seu tempo não o satisfaziam, algo que santo Agostinho já dizia: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti
 O coração daquele sujeito de mais de dois metros e quase 140 quilos só iria encontrar descanso ao se refugiar em Cristo e no “lar”, na Igreja Católica, onde foi batizado no ano de 1922.
A presença de Nossa Senhora foi fundamental para conversão de Chesterton. Ele mesmo nos relata que quando se lembrava do catolicismo se recordava de Nossa Senhora: “Mal consigo recordar um tempo em que a imagem de Nossa Senhora não se erga muito concretamente no meu espírito [...]. Quando recordava a Igreja Católica, recordava-a a Ela; quando tentava esquecer a Igreja Católica, tentava esquecê-la a Ela”.
A vida de Chesterton é um grande paradoxo. Um sujeito de dimensões gigantes possuía um coração pequeno que não conseguia bombear o suficiente para mantê-lo. Inclusive isto foi um dos motivos para seu falecimento há 75 anos, em 14 de junho de 1936. Se pequeno era seu coração físico, gigante era seu coração em generosidade, amizade e amor. Sempre apaixonado por Francês Blog, com que se casou em 1901, não puderam ter filhos. No entanto tiveram milhares de admiradores e muitos amigos. Chesterton foi grande amigo de Bernard Shaw, H.G. Wels, G.S. Street, etc. Tornou-se grande amigo de Hillaire Belloc, a quem estimava muito, fato que levou Shaw a apelidá-los de “monstro Chesterbelloc”.
Seu personagem mais marcante é o famoso sacerdote-detetive Padre Brown. É curioso pensar que Chesterton, de férias, iria conhecer um padre que se tornou muito amigo, que lhe inspiraria a criar o famoso detetive Padre Brown. Pe. John O’Connor, que era de origem irlandesa e estava alocado na Igreja de St. Anne de Keighley, em Yorkshire. Segundo Maise Ward, biógrafa de Chesterton, era “talvez a amizade mais íntima da vida de Gilbert.” O primeiro conto da saga Padre Brown foi lançado em 1901, a exatos cem anos, com o título A inocência do Padre Brown. Já no primeiro conto a Cruz azul Chesterton já se apresenta e também a seus personagens. Ele demonstra como a razão e o conhecimento profundo do ser humano, em especial o fato dele ser um ser marcado pelo pecado original, será a chave investigativa do Padre Brown. Antônio Gramsci, comunista italiano disse que Chesterton “era um grande artista”, em uma de suas cartas de cárcere, e explica a fórmula como o Brown resolvia os mistérios: “O padre Brown é o sacerdote católico que através de refinadas experiências psicológicas fornecidas pelas confissões e pela trabalhada casuística moral dos padres, embora sem menosprezar a ciência e a experiência, mas baseando-se especialmente na dedução e na introspecção.”
Apesar de ainda desconhecida sua vida e suas obras – basta ir em uma livraria e pedir livros dele para comprovar – houve, como ainda há, esforços para torná-lo conhecido no Brasil. Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção, Gilberto Freire, entre outros, foram grandes admiradores de Chesterton.
Com o intuito de difundir a vida e obra de Chesterton, um pequeno grupo, motivado pelo autor desse artigo, decidiu lançar a ideia de criar um site chamado “Chesterton no Brasil”. O site tem como objetivo reunir artigos, traduções, vídeos, áudios, frases e trechos de suas obras, imagens etc. com o intuito de possibilitar um contato com a vida e pensamento desse gênio e motivar a criação de sociedade Chestertoniana no Brasil.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Necessário ler: G. K. Chesterton

Por Todd A. Kappelman*
Traduzido para o Veritatis Splendor por Emerson H. de Oliveira.

Um cristão para o século vinte

Este artigo é outro de nossa série Necessário Ler. O propósito da série é apresentar as pessoas autores diversos e fazê-las conhecer bem a sua obra. Infelizmente, muitas pessoas que gostam de C. S. Lewis e Francis Schaeffer desconhecem o trabalho de Gilbert Keith, ou G. K. Chesterton (1874-1936), admirado por ambos. George Bernard Shaw o chamou de "gênio colossal" e Papa Pius XI o chamou de um "filho dedicado da Santa Igreja e um talentoso defensor da fé". (1)


Até sua morte aos 72 anos, Chesterton foi uma figura dominante na Inglaterra e um forte defensor da fé, e ortodoxia Cristã, como também um entusiástico da igreja católica romana. Além de quase cem livros, ele escreveu para mais de 75 periódicos britânicos e cinqüenta publicações americanas. Ele escreveu crítica literária, argumentação religiosa e filosófica, biografias, peças, poesia, versos, histórias de detetive, romances, histórias pequenas, e comentários econômicos, políticos, e sociais. (2)

Uma excelente introdução para Chesterton pode ser achada em um livro titulado Orthodoxy publicado nos Estados Unidos em 1908, e afetuosamente dedicado sua mãe . Em Orthodoxy Chesterton faz uma defesa apologética de sua fé Cristã . Ele cria que esta defesa era necessária para responder algumas críticas dirigidas a seu livro anterior, Heretics. (3)

Antes de Schaeffer escrever Escape From Reason, Chesterton intitulou o terceiro capítulo da Ortodoxia de "The Suicide of Thought" (O Suicídio do Pensamento) uma crônica da morte do homem moderno.

Chesterton dizia que nós sofremos hoje da humildade no lugar errado. "A modéstia se moveu para o órgão da ambição A modéstia se tornou o lugar da ambição; onde nunca significou ser. O homem duvidava sobre si, mas não sobre a verdade; isto foi invertido. Hoje em dia a parte do homem que afirma, é exatamente a parte que ele deve duvidar de si mesmo. A parte que ele duvida é exatamente a parte que ele não deve duvidar." The Divine Reason". (4)

Chesterton acreditava que a autonomia do homem tinha sido elevada além da razão de Deus; cada indivíduo se tornou seu próprio mestre. As pessoas não podem ver nenhuma resposta para o problema da religião, mas isso não é a dificuldade com as pessoas modernas. O homem moderno, disse Chesterton, nem mesmo pode observar o enigma.

Os homens modernos, ele acreditava, tinham se tornado como pequenas crianças que são tão estúpidas que nem mesmo fazem assertivas filosóficas corretas. (5) Chesterton, como C. S. Lewis e Francis Schaeffer, compreendeu que a religião no século XX ficaria muito filosófica até mesmo para o homem comum. Chesterton nos lembra que os cristãos estariam vivendo por um tempo quando muitos dos amigos deles, família, e vizinhos, como também os colegas de trabalho e cônjuges, já não estariam vivendo como se o homem tivesse de ser razoável. Depois Francis Schaffer chamaria este mesmo fenômeno cultural de idade da não-razão.

Chesterton orgulhava-se muito de ser um católico romano, e freqüentemente defendeu a Igreja tanto quanto a fé em geral. Ele era um católico romano que várias vezes discutia sobre o Cristianismo Universal e talvez, será visto pela maioria das pessoas, tal como C. S. Lewis, um "mero tipo de Cristianismo " de aproximação para a fé. 

Chesterton e um Cristianismo Razoável

Em seu livro The Everlasting Man pode se ver um Chesterton maduro. Foi escrito em 1925 só três anos depois da igreja católica romana o ter recebido à idade de quase cinqüenta. Neste livro Chesterton coloca um estilo de argumentação chamado de reductio ad absurdum.(6) Ele mostra algumas das afirmações dos racionalistas e agnósticos para mostrar a absurdidade do ponto de vista deles. Ele começa com uma demonstração que se o homem é tratado como um mero animal o resultado não só seria ridículo, mas o mundo não existiria em seu estado presente. Os homens não agem como se não houvesse nada de especial neles. Eles agem como se o homem fosse o ser mais superior e a suprema realização do Universo.

Em uma seção intitulada "The Riddles of the Gospel" (Os Enigmas do Evangelho), Chesterton tenta mostrar como seria um indivíduo se confrontar com os Evangelhos e realmente encontrar o Cristo de lá. Ele não acharia um Cristo que se parece com outros professores morais. O Cristo apresentado no Novo Testamento não é estúpido ou insípido, Ele é dinâmico e inigualável em toda a história. O Cristo dos Evangelhos é cheio de perplexidades e paradoxos.

Os livres-pensadores e muitos incrédulos, disse Chesterton, criticam às aparentes contradições achadas na Bíblia, especialmente a Cristo. Jesus preveniu seus seguidores de dar a outra face e não se preocuparem com o amanhã. Porém, ele não deu a outra face quando expulsou os vendilhões do Templo e constantemente estava ensinando as pessoas a se prepararem para o futuro. Da mesma forma, a visão de Cristo do matrimônio é sem igual em toda a história. Os judeus, romanos, e gregos não acreditavam ou até mesmo entendiam o bastante para descrer da idéia mística de que o homem e a mulher tinham se tornado uma substância sacramental na união matrimonial. (7) A visão de Cristo do matrimônio não é nem um produto da cultura dele nem mesmo um desenvolvimento lógico da época. É um ensino totalmente estranho e maravilhoso que tem o estigma de ser de outro mundo.

Antes de C. S. Lewis ter formulado suas observações que o Cristo ou é um mentiroso, um lunático, ou Senhor, Chesterton tinha disposto o mesmo problema. O Cristo do Novo Testamento, Chesterton disse, não é uma mera figura mítica. Ele não pode ser só outro professor ético ou até mesmo um bom homem; estes pontos não seriam aceitos por uma pessoa que lesse o Novo Testamento corretamente. O resto da pergunta é: Quem é Cristo?

Em The Everlasting Man Chesterton diz que cada uma das explicações acima mencionadas são inadequadas. A idéia que o Cristo era um lunático, ou até mesmo um bom professor, perde um pouco do mistério que Ele tinha. (8) Deve haver algo em uma pessoa que tão misteriosa e que inspirou tanta controvérsia quanto Cristo.

O Cristo era quem Ele disse que era e é infinitamente mais misterioso que a mente humana finita pode compreender. Nos seus escritos, G. K. Chesterton demonstra que ele é um escritor Cristão que possuiu esses conhecimentos raros e necessários que permitem entender difíceis problemas teológicos e filosóficos e discutidos pelo homem comum. 

As Reflexões de Chesterton na América

Os escritos de Chesterton cobrem desde tendências teológicas, filosóficas, sociais, políticas, e econômicas com atenção particular para uma visão mundial Cristã. Nos dois trabalhos What I Saw In AmericaSidelights, Chesterton oferece para o leitor suas reflexões na América durante a primeira parte do século XX.

Em 10 de janeiro de 1921 Chesterton e sua esposa Frances começaram uma excursão de três meses na América. A primeira parada deles foi na Cidade de Nova Iorque. Aqui Chesterton viu as luzes da Broadway e proclamou: "Que glorioso jardim de maravilhas poderia ser isso a qualquer um que pudesse ler." (9)

Assim começam as observações desse grande homem e suas impressões do Novo Mundo, arranha-céus, a América rural, a política de Washington, e a condição espiritual da nação.
Alguns dos temas centrais que emergem em Sidelights, e especialmente em What I Saw In America, são as visões de Chesterton dos efeitos do racionalismo, comercialismo, e a pobreza espiritual geral de muitos americanos. Embora ele esteja pintando uma cena com grandes pinceladas, muito pode ser aprendido de como era o homem na primeira metade do século XX e como nós nos tornamos agora.

Chesterton pôde ver ambos os lados da experiência americana: o sonho como também o pesadelo. Ele parece ficar no equilíbrio de algum sonho utópico que paria na mente de alguns americanos com a realidade de vida de alguns. Chesterton disse que a primeira impressão dele da América foi de algo enorme e bastante antinatural, e foi gradualmente suavizado pela sua experiência de generosidade entre as pessoas. Além disso, e com toda a sinceridade, disse ele que havia algo de sobrenatural sobre o sistema vasto que parecia ser um tipo de procura por um futuro utópico. Ele disse "a marcha para Utopia, a marcha para o Paraíso Terrestre, a marcha para a Nova Jerusalém, foi em grande parte a marcha para a Main Street. A maior sensação atual é um livro" se referindo aqui a novela de Sinclair Lewis, Main Street, escrita em 1920 e "escrita para mostrar como é miserável viver lá". (10)

Chesterton freqüentemente pensou na América e nela buscaria um dos temas mais favoritos dele durante quase vinte e cinco anos de sua primeira visita. Suas discussões sobre beber e fumar pode parecer a muitas leitoras algo marginal, um tipo de antiquada diversão masculina. Mas estes temas eram cruciais à visão de Chesterton de uma vida completa e para ele um moralismo extraviado representado nos Estados Unidos. A incongruência puritana dos americanos serviria a Chesteron como um ponto de partida para todo o pensamento dele sobre o Novo Mundo.

Chesterton era inglês e podia oferecer críticas do ponto de vista de um estrangeiro sem as dificuldades da barreira do idioma. Embora ele soubesse que seu país na Europa estava passando pelas mesmas mudanças filosóficas e sociais, foi a velocidade com a qual a América estava abraçando essas idéias que o alarmou. Em What I Saw In America qualquer um verá o que Chesterton descobriu achando alarmado e perigoso sobre nosso país na primeira metade do vigésimo século.

Chesterton foi confrontado com proibição em ambas as viagens dele para a América e estava bastante preocupado com aspectos cristãos e suas implicações na sociedade. Ele nunca se cansou da metáfora estendida da proibição como a condição de religião nos Estados Unidos. Fazendo uma comparação entre a Nação de Carrie e os Anticonformistas na Inglaterra, Chesterton acreditou que ambos os grupos sofreram de uma noção imóvel da natureza do Cristianismo. (11)

Chesterton viu neste legalismo da proibição da bebida alcóolica na América um indicador de como a religião Protestante estava errada no momento. Ele fez uma bela aposta que se um autor popular americano mencionasse religião e moralidade no começo de um parágrafo, ele mencionaria bebida alcoólica pelo menos antes do fim. Aos homens de outras religiões e crenças isso pareceria estranho. (12) O resultado natural era que o homem comum sempre imaginou o Cristianismo como sendo só uma proibição contra fumar e beber. Como conseqüência, a salvação tinha muito mais a ver com abstinência do que com regeneração.

A hipocrisia vitoriana era que havia orações e uma forma de religião, mas só para encobrir uma mentalidade anti-tradicionalista. O cristão comum, Chesterton acreditava, estava professando a religião dele por um lado e estava abraçando um comercialismo industrial penetrante e destrutivo no outro. (13) O olhar de Chesterton era de um homem que testemunhou um novo fenômeno estranho: cristãos que juntam sua prosperidade com a fé.

Apesar de uma Grande Depressão, uma guerra mundial que conduziria logo a outra, e numerosas injustiças sociais, o século vinte nos ano trinta ainda era uma época em que havia muita propriedade de carros, férias regulares, altos salários e vida próspera para muitos americanos. Esta era a verdadeira formação do sonho americano, e seria a visão mais grosseira do materialismo.

Chesterton foi severo nessas afirmações várias vezes. Primeiro, havia então e ainda permanecia um grande segmento da população Cristã que acreditava que a fé Cristã era um pouco mais do que uma lista de proibições. Não é que não há coisas que os cristãos devem e não devem fazer, mas o perigo é abafar a fé cristã com essa atitude. Para Chesterton a idéia que os bons cristãos não bebem seria equivalente a dizer que tem que se usar uma gravata no domingo pela manhã para se estar bem na fé. Da mesma forma que alguns consideram que a declaração é ridícula e confusa a Chesterton, como também C. S. Lewis, por isso alguns cristãos americanos não reconheceram o mesmo na declaração anterior.

Como com relação ao sonho americano, as palavras de Chesterton são ainda uma advertência para o modo no qual os americanos, cristãos e não-cristãos, se tornaram em grande parte uma nação de consumidores. Nós podemos ler suas palavras da primeira metade do século vinte como uma advertência para nós agora. 

A Irracionalidade do Homem Moderno

Chesterton foi um prolífico jornalista cujas contribuições para mais de cem diários americanos e britânicos e periódicos continuam sendo lidas por cristãos ao longo do mundo. Ainda é necessário avaliar a grandeza desse homem mesmo em pequenos trabalhos.

Em T. P. Weekly em 1910, Chesterton escreveu um pequeno artigo intitulado What is Right with the World? (O que Está Certo com o Mundo?) Nele reconhece o fato que o mundo não parece se apresentar bem em algum aspecto vital e que este fato quase não pode ser discutido. (14) Porém, Chesterton não deixa o leitor com a observação pessimista que o mundo não é um lugar muito agradável. Ele diz que a única coisa que está certa no mundo é o próprio mundo. Esse fato é real já que o homem e a mulher foram criados perfeitos. O fato que algumas coisas estavam erradas não afligiu Chesterton; somente disse isso numa certa vez em que disse que fomos criados bons e agora somos maus. A escuridão do mundo, Chesterton disse, não é tão negra se nós reconhecemos como e por que as coisas estão como elas estão.

Em um certo ponto em um trabalho chamado The Common Man Chesterton tenta mostrar por que é necessário todo indivíduo ter uma filosofia. A melhor razão é que aquelas certas coisas horríveis acontecerão a qualquer um que não possui algum tipo de visão mundial coerente. (15) Parecendo um apologista Cristão contemporâneo, Chesterton disse que um homem sem uma filosofia seria sentenciado a se manter sempre sob a filosofia da massa. (16)

Chesterton continua desafiando a idéia do que a filosofia é para uma pessoa, dizendo que a maioria de nossos males modernos é o resultado do desejo de uma boa filosofia. Filosofia, ele disse, pensava-se somente ser para o que tinha sido estipulada originalmente . Todos os homens testam todas as coisas. A pergunta é se o teste alguma vez foi testado. (17) Todos podem ver em Chesterton o mesmo chamado para se pensar e refletir que Francis Schaffer usou cinqüenta anos depois para chamar uma geração inteira de cristãos para se tornarem mais filosóficos e começarem a usar a cultura de uma forma mais substancial.

Nós tentamos dar-lhes aqui mais um motivo para se ler G. K. É necessários os leitores de C. S. Lewis, Francis Schaeffer, Os Guinness, ou Peter Kreeft lerem seus trabalhos. Fechando, o poema de Chesterton The Happy Man (O Homem Feliz) do livro The Wild Night (A Noite Selvagem) serve como uma conclusão:
Ensinar a terra cinzenta como uma criança,
Chamar os céus a se arrependerem,
Eu só pergunto para o destino o presente
De um homem bem contente.
Eu acho que ele vai: embora quando não sei
Eu procuro em festa e praças,
As desvanescentes flores da liberdade,
As máscaras pintadas da arte.
Eu só o encontro como o último,
Em uma velha colina onde mora
A Trindade horrível do Gólgota -
Três pessoas e um Deus.
Notas

1.Robert Knille, ed., As I Was Saying: A Chesterton Reader (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1985.), 3.
2.Ibid.
3.G. K Chesterton, Orthodoxy, in The Collected Works of G. K. Chesterton, David Dooly, ed. (San Francisco: Ignatius Press, 1986), vol. I, 211.
4.Ibid., 234-235.
5.Ibid.
6.G. K. Chesterton, The Everlasting Man, in A Chesterton Anthology, P.J. Kavanagh, ed. (San Francisco: Ignatius Press, 1986), 416.
7.Ibid., 422.
8.Ibid., 424.
9.Robert Royal, "Introduction," in G. K. Chesterton: Collected Works (San Francisco, Ignatius Press 1990), 9.
10.G. K. Chesterton, "What I Saw in America," in G. K. Chesterton: Collected Works (San Francisco, Ignatius Press
1990), 105.
11.G. K. Chesterton, "Sidelights," in G. K. Chesterton: Collected Works (San Francisco, Ignatius Press 1990), 565.
12.Ibid.
13.Ibid., 513.
14.G. K Chesterton, "What is Right with the World?," collected first in The Apostle and the Wild Ducks, 1975, P. J. Kavanagh, ed. (San Francisco: Ignatius Press, 1986), 343.
15.Knille, 80.
16.Ibid.
17.Ibid., 82.
© 2000 Probe Ministries International

*Sobre o Autor 

Todd A. Kappelman é um sócio de campo da Probe Ministries. Ele é diplomado pela Universidade Batista de Dallas (B.A. e M.A.B.S., religião e grego), e pela Universidade de Dallas (M.A., filosofia/humanidades). Atualmente ele obtêm um Ph.D. em filosofia na Universidade de Dallas. Ele serviu como diretor assistente do Trinity Institute, um centro de estudos dedicados ao pensamento Cristão e investigação. Ele foi o editor administrador de The Antithesis, uma publicação bimensal dedicada à crítica de filmes estrangeiros e independentes. Sua área principal de trabalho é filosofia Continental (especialmente do século XIX e XX) e pensamento pós-moderno.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

V - A HISTÓRIA DA FAMÍLIA

V
     A HISTÓRIA DA FAMÍLIA
Autor: G.K. Chesterton
Tradução: ©Prof. Carlos Ramalhete
Disponível originalmente a versão preliminar no blog HsJonline

A mais antiga das instituições humanas tem uma autoridade que pode parecer tão selvagem quanto a anarquia. Ela é a única, dentre todas estas instituições, a começar com uma atração espontânea, e de que se pode dizer que é baseada no amor, não no medo. A tentativa de compará-la com as instituições coercitivas que vêm complicando a história recente levou a uma infinita falta de lógica nos últimos tempos.

Trata-se de algo tão único quanto universal. Não há nada, em nenhuma outra relação social, que seja sequer paralelo à atração mútua dos sexos, e é ao perder de vista este fato simples que o mundo moderno caiu em centenas de enganos.

A idéia de uma revolta geral das mulheres contra os homens foi proclamada com bandeiras e passeatas, como se fosse uma revolta de vassalos contra seus senhores, de negros contra negreiros, de poloneses contra prussianos ou de irlandeses contra ingleses; todos agiam como se acreditassem na nação fabulosa das amazonas. A ideia, igualmente filosófica, de uma revolta geral dos homens contra as mulheres foi proposta em forma de romance por Sir Walter Besant, e como livro de sociologia pelo Sr. Belfort Bax.

Ao primeiro toque desta verdade de uma atração aborígene, contudo, todas estas comparações desabam e se vê como são cômicas. Um prussiano não sente, logo de cara, que ele só será feliz quando puder passar os dias e as noites ao lado de um polonês. Um inglês não acha que a casa parece vazia e triste a não ser que haja um irlandês lá dentro. Um escravagista não sonha, na sua juventude romântica, com a beleza perfeita de um africano. Um magnata das ferrovias raramente escreve poemas sobre o fascínio particular de um carregador de estação de trem.

Todas estas outras revoltas, contra todas estas outras relações, são razoáveis, para não dizer inevitáveis, por serem relações originalmente baseadas na força ou no interesse próprio. A força consegue abolir o que a força consegue estabelecer; o interesse próprio pode rescindir um contrato que foi ditado pelo interesse próprio. O amor de um homem e de uma mulher, contudo, não é uma instituição que posssa ser abolida ou um contrato que possa ser rescindido. É algo mais antigo que todas as instituições e contratos, algo que certamente irá continuar quando eles não mais existirem.

Todas as outras revoltas são reais, porque persiste a possibilidade de que as coisas possam ser destruídas, ou ao menos divididas. É possível abolir os capitalistas, mas não se pode abolir os homens. Os prussianos podem sair da Polônia, ou os negros voltar à África, mas um homem e uma mulher vão sempre permanecer juntos, de um jeito ou de outro, e devem aprender a tolerar-se mutuamente de alguma maneira.

Trata-se de uma verdade muito simples, e talvez por isso hoje em dia ela passe desapercebida. A verdade que dela se depreende é igualmente óbvia. Não se discute por quê a natureza criou esta atração; na verdade, seria mais inteligente perguntar-se por quê Deus a criou, pois a natureza não teria propósito sem Deus por trás dela. Falar de um propósito na natureza é tentar, em vão, usar o feminismo para evitar o antromorfismo. É crer numa deusa por se ser cético demais para acreditar em um deus.

Esta controvérsia, contudo, pode ser deixada de lado nesta discussão, se nos contentarmos em dizer que o valor vital que se encontra, afinal, nesta atração é, evidentemente,a renovação da raça humana.

A criança é uma explicação do pai e da mãe, e o fato de ela ser uma criança humana é uma explicação dos antigos laços humanos que ligam o pai e a mãe. Quanto mais humana – ou seja, menos bestial – for a criança, mais legítimos e duradouros serão estes laços. Assim, quaisquer progressos na cultura ou na ciência, longe de afrouxar estes laços, irão logicamente estreitá-los. Quanto mais houver para a criança aprender, mais tempo terá ela de passar na escola natural onde os aprende, e mais deve tardar a dissolução da parceria de seus mestres.

Esta verdade elementar está hoje escondida sob uma multidão de intermediários, agindo em função direta ou indireta da falácia elementar de que tratarei em seguida. Falo da posição primária do grupo humano, tal como ele persistiu ao longo de eras, enquanto as civilizações ascendiam e decaim; frequentemente incapaz de delegar o que quer que fosse do seu trabalho, e sempre incapaz de delegá-lo por inteiro. Nisto, repito, sempre será necessário que os dois mestres fiquem juntos, enquanto eles tiverem algo a ensinar.

Um bicho marinho qualquer, que simplesmente se desliga da cria e flutua para longe, poderia flutuar até um tribunal de divórcio submarino ou um clube de amor livre para peixes. O bicho marinho pode fazê-lo precisamente porque a sua cria não precisa fazer nada, porque ela não tem que aprender a dançar polca ou recitar a tabuada. Estou enumerando truísmos, mas truísmos verdadeiros; as verdades sempre acabam voltando à cena. Afinal, o emaranhado de substitutos semi-oficiais da verdade que agora encontramos não é grande o bastante para tapar o buraco. Se as pessoas não conseguem cuidar da própria vida, simplesmente não pode fazer sentido pagá-las para cuidar da vida dos outros, menos ainda para cuidar dos bebês dos outros. Isso é simplesmente jogar fora um poder natural para pagar por um poder artificial, como quem rega uma planta com uma mangueira enquanto a protege da chuva com uma sombrinha.

Tudo isso, na verdade, está baseado em uma ilusão plutocrática de uma oferta infinita de serviçais. Sempre que aparece um sistema novo qualquer que seja apresentado como “uma carreira feminina”, o que está realmente sendo proposto é transformar um número infinito de mulheres em serviçais da plutocracia ou da burocracia. Em última instância, estamos argumentando que uma mulher não deveria ser mãe do próprio filho, sim babá do filho dos outros. Isto, contudo, não tem como funcionar nem no papel. Não é possível que cada um lave a roupa do próximo, muito menos os babadores. No fim das contas, as únicas pessoas que conseguem cuidar, ou mesmo de quem se possa dizer que cuidem, individualmente, de cada criança individual são os seus pais individuais. A expressão, tal como é aplicada aos que lidam com multidões cambiantes de criancinhas, é apenas uma graciosa e legítima figura de linguagem.

Este triângulo de lugares-comuns composto de pai, mãe e filho é indestrutível, e destrói qualquer civilização que o menospreze. A maior parte dos reformadores modernos é apenas um amontoado de céticos vazios, que não têm base alguma sobre a qual reconstruir; seria bom se estes reformadores se dessem conta de que há algo que eles não conseguem reformar.

É possível derrubar os poderosos de seus tronos. É possível virar o mundo de ponta-cabeça, e é perfeitamente defensável que esta seja a posição certa para ele. Contudo, é impossível criar um mundo em que o bebê carrega a mamãe. Não se pode criar um mundo em que a mãe não tenha autoridade sobre o bebê. É possível perder tempo argumentando, dando aos bebês o direito de voto ou proclamando uma república infantil. É até mesmo possível dizer, como o fez outro dia um pedagogo, que as crianças pequenas deveriam “criticar, questionar a autoridade e suspender seu julgamento”. Não sei por que ele não continuou, dizendo que elas deveriam trabalhar para ganhar a vida, pagar imposto de renda e morrer pela Pátria no campo de batalha, já que evidentemente o que está sendo proposto é que as crianças não tenham infância.

Mas, se isso parecer divertido, é possível organizar um “governo representativo” entre os menininhos e menininhas e dizer a eles que levem o mais a sério que puder as suas responsabilidades legais e constitucionais. Resumindo, é perfeitamente possível ser louco, mas é impossível fazer sentido. Não se pode realmente levar às raízes este princípio e aplicá-lo à mamãe e ao bebê. Não é possível aplicar a teoria ao mais simples e mais prático de todos os casos. Ninguém é louco a este ponto.

Este núcleo de autoridade natural sempre existiu em meio a autoridades mais artificiais. Ele sempre foi visto como algo literalmente individual, ou seja, como algo absoluto, que não pode ser dividido. Um bebê não seria sequer um bebê sem a mãe; seria outra coisa, mais provavelmente um cadáver. Isto sempre foi reconhecido como algo que tem uma relação peculiar com o governo, simplesmente por ser uma das coisas que não foram feitas pelo governo e que poderia, em certa medida, vir a existir sem o apoio do governo. Realmente, trata-se de algo tão evidente que nenhuma defesa é possível ou necessária. Pois a defesa que pode ser feita é que não há nada comparável, e nos poderes e instituições mais elaborados, que são seus inferiores, não encontraremos mais que leves paralelos.

Assim, a única maneira de transmitir esta idéia é comparando-a com uma nação, ainda que, comparadas a ela, as divisões nacionais sejam tão modernas e tão formais quanto os hinos nacionais. É por isso que eu uso frequentemente a metáfora de uma cidade, ainda que o citadino, em comparação, seja uma novidade tão recente quanto o funcionário público municipal. Basta notar aqui que todos sabem por intuição, e admitem por implicação, que uma família é um fato, algo sólido, dotado de cor e caráter como uma nação.

Esta verdade é comprovada nas experiências mais cotidianas e mais modernas. Um homem vai dizer “é o tipo de coisa de que os Brown vão gostar”, por mais intrincada e interminável que seja a novela psicológica que ele possa compôr sobre os tons das diferenças entre o Seu Brown e a Dona Brown. Uma mulher vai dizer “eu não gosto que a minha filha frequente a casa dos Robinsons”, mas ela não vai sempre parar, no meio de suas exaustivas tarefas sociais ou domésticas, para dintinguir entre o materialismo otimista do Seu Robinson e o cinismo um tanto ou quanto mais ácido que permeia o hedonismo da Dona Robinson.

O interior de um lar tem uma cor própria, tão evidente quanto o exterior da casa. Esta cor é uma mistura, e se um tom prevalecer será geralmente o da mulher da casa. Mas, como todas as cores compostas, ela é uma cor à parte, tão distinta quanto o verde é distinto do azul e do amarelo. Todo casamento é uma espécie de equilíbrio dinâmico, e o acordo a que se chega, em cada caso, é tão único quanto qualquer excentricidade. Os filantropos que andam pelas favelas frequentemente percebem este acordo sendo feito aos brados, em plena rua, e acham que estão vendo uma briga. Quando metem o colher apanham do marido e da mulher, o que é bem feito, por não respeitarem a própria instituição que os trouxe ao mundo.

A primeira coisa a perceber é que esta normalidade gigantesca é como uma montanha, que pode ser até um vulcão. Todas as anormalidades que se lhe opõem são como o montinho de terra que marca a toca de uma toupeira, e os organizadores sociais, com toda a sua autenticidade, parecem-se cada vez mais com toupeiras.

Mas a montanha também é um vulcão em outro sentido, como o sugerido pela tradição dos campos fertilizados por lava, no Sul. Ele tem um lado criativo, bem como um lado destrutivo, e resta apenas, nesta parte da análise, notar o efeito político desta instituição extra-política, bem como os ideais que ela defendeu, frequentemente sozinha.

O ideal que ela defende em relação ao Estado é o da liberdade. Ela preserva a liberdade pela razão simples com que comecei este esboço de análise. É a única instituição que é ao mesmo tempo necessária e voluntária. É o único dos freios ao poder do Estado que se renova de modo tão eterno quanto o Estado e de modo mais natural que ele.

Qualquer homem são há de reconhecer que a liberdade ilimitada é anarquia, ou melhor, não é nada. A idéia cívica de liberdade é dar ao cidadão uma província em que ele é livre, um território circunscrito em que ele é rei.

Esta é a única maneira de a verdade se refugiar da perseguição pública e do homem bom sobreviver ao governo mau. Mas o homem bom, sozinho, não tem como enfrentar a cidade. Outra instituição deve servir de contrapeso à cidade, e neste sentido ela é uma instituição imortal.

Enquanto o Estado for a única instituição ideal ele irá conclamar o cidadão a sacrificar-se, e assim não terá escrúpulos em sacrificar o cidadão.

O estado consiste em coerção, e, no seu próprio ponto de vista, está sempre certo quando aumenta a coerção. É o caso, por exemplo, do serviço militar obrigatório. A única coisa que pode ser colocada para limitar ou desafiar esta autoridade é uma lei voluntária e uma lealdade voluntaria. Esta lealdade é a proteção da liberdade, na única esfera em que a liberdade pode verdadeiramente florescer. É um princípio constitucional que o Rei nunca morre. É o princípio único da família que o cidadão nunca morre. É necessário que haja uma heráldica e uma hereditariedade da liberdade, uma tradição de resistência à tirania. Os homens não devem apenas ser livres, mas nascer livres. Realmente, há algo na família que pode ser chamado até de anarquista, ainda que seja mais correto dizer ser algo amador. Assim como ela parece ser algo vaga acerca de sua origem voluntária, também parece haver algo vago acerca de sua organização voluntária. A função mais vital que ela desempenha, que talvez seja a função mais vital que qualquer um possa desempenhar, é a de educação; mas este tipo de educação fundamental é essencial demais para que se possa confundi-la com mera instrução.

Sua regra é mais prática que teórica, em milhares de aspectos. Para dar um exemplo banal, e até engraçado, duvido que algum livro-texto ou código de regras já tenha contido instruções sobre como botar uma criança de castigo no canto da parede. Certamente, quando o processo moderno se houver completado e o princípio coercitivo do Estado tenha extinguido completamente o elemento voluntário da família, haverá alguma restrição ou regulação estrita sobre isto. Possivelmente ela determinará que o canto onde a criança vai ficar de castigo deva ter um ângulo de pelo menos noventae cinco graus. Possivelmente, ela dirá que a linha de convergência de um canto comum tende a envesgar a criança.

De fato, tenho certeza de que se eu deixar escapar em um número suficiente de reuniões sociais que cantos de parede envesgam as crianças, isto rapidamente se tornará um dogmada ciência popular.

Afinal, o mundo moderno não aceita dogmas baseados em alguma autoridade, mas aceita de bom grado dogmas baseados em nenhuma autoridade. Se se diz que uma coisa é assim ou assado de acordo com o Papa ou a Bíblia, ela será desprezada como superstição sem ser examinada. Mas se, ao contrário, dissermos que “dizem que”, ou “você não sabia que”, tentando, sem sucesso, lembrar o nome de algum cientista citado num artigo de jornal, o racionalismo aguçado da mente moderna aceitará qualquer coisa que lhe seja dita.

Este parêntese não é tão irrelevante como parece, pois é necessário lembrar que quando um oficialismo rígido irrompe em meio às cessões voluntárias do lar ele será rígido apenas na ação, enquanto certamente será ao mesmo tempo excessivamente frouxo na razão. Intelectualmente, ele não será menos vago que os arranjos amadores do lar; a única diferença é que os arranjos domésticos são, no único sentido real, práticos, ou seja, são baseados nas experiências passadas.  Os outros arranjos são o que geralmente é dito científico, ou seja, são baseados em experiências que ainda não foram feitas. Na verdade, ao invés de invadir a família com a desastrada burocracia que desgoverna os nossos serviços públicos, seria muito mais filosófico fazer uma reforma no sentido oposto.

Seria certamente razoável alterar as leis da nação para que elas se pareçam com as do quarto de brinquedos. As punições seriam muito menos horríveis, muito mais divertidas, e serviriam muito melhor para fazer com que os homens percebam que fizeram papel de idiota. Seria uma diferença bem vinda se um juíz, ao invés de botar um chapéu preto, botasse um chapéu de burro, ou se pudéssemos botar um banqueiro de castigo olhando para o canto.

Esta opinião, é claro, é rara e reacionária, seja o que isto queira dizer. A educação moderna é baseada no princípio de que o pai ou a mãe têm mais chance de serem cruéis que qualquer outra pessoa. Ora, qualquer um pode ser cruel, mas as maiores chances de crueldade estão nas multidões indiferentes e sem cor dos completos estranhos e dos mercenários mecanicistas, que agora é moda chamar de agentes de melhoria: policiais, médicos, deteives, inspetores, instrutores,  etc.

A eles é dado poder arbitrário por existir aqui e ali um pai ou mãe criminosos, como se não houvesse médicos criminosos ou pedagogos criminosos. A mãe não toma sempre a melhor decisão sobre a dieta de seu filhinho, e eis que ela passa ao controle do Dr. Crippen. Pensa-se que um pai não ensina a seus filhos a mais pura moralidade, o que faz com que se os coloque sob a tutela de Eugene Aram.

Estes célebres criminosos não são mais raros em suas profissões respectivas que pais cruéis são na paternidade. Mas o caso é mais forte que isto, e não é sequer necessário apelar a estes criminosos.

As fraquezas normais da natureza humana explicarão todas as fraquezas da burocracia e dos governos do mundo todo. O oficial precisa apenas ser uma pessoa normal para ser mais indiferente em relação aos filhos dos outros que em relação aos seus próprios filhos, e até mesmo para sacrificar a prosperidade de outras famílias para avançar a da sua.

Ele pode estar entediado, ele pode ser subornado, ele pode ser brutal, por qualquer uma das mil razões que já fizeram um homem ser brutal.

Todo este senso comum elementar é completamente deixado de lado nos sistemas sociais e educacionais de hoje. Assume-se que o assalariado não irá abandonar seu trabalho, simplesmente por ele ser assalariado.

Nega-se que o pastor dará a vida por suas ovelhas, ou, já que estamos falando deste tipo de coisas, que a loba irá lutar para proteger seus filhoes. Querem que creiamos que as mães são desumanas, mas não que os oficiais são humanos. Que haja pais desnaturados, mas não paixões naturais. Ou, ao menos, que não haja nenhuma onde a fúria do Rei Lear ousou encontrá-las: no funcionário subalterno. Esta é a última descoberta brilhante para a educação das crianças, e o mesmo princípio que se aplica a elas é aplicado aos pais. Assim como ela assume que uma criança será certamente amada por todos, com a exceção de seu pai e sua mãe, ela assume que um homem pode ser feliz com qualquer pessoa, menos com a mulher que ele mesmo escolheu como esposa.

Assim o poder coercitivo do Estado prevalece sobre a promessa livre da família como oficialismo formalizado. Este, contudo, não é o mais coercitivo dentre os elementos coercitivos da comunidade moderna. Um poder externo ainda mais inescrupuloso e rígido é o do emprego e desemprego na indústria. Um inimigo ainda mais feroz da família é a fábrica. Entre estas coisas mecânicas modernas a instituição natural antiga não está sendo reformada, modificada ou mesmo podada: ela está sendo dilacerada. E ela não está sendo dilacerada no sentido de uma metáfora verdadeira, como a de um ser vivo preso em uma engrenagem medonha de uma máquina. Ela está sendo, literalmente, rasgada ao meio, como quando o marido vai para uma fábrica, a esposa para outra, e a  criança para uma terceira. Cada um deles se torna o servo de um grupo financeiro diferente, que cada vez mais ganha o poder político de um grupo feudal. Mas enquanto o feudalismo recebia a lealdade das famílias, os senhores do novo estado servil recebem apenas a lealdade de indivíduos, ou seja, de homens solitários e até mesmo de crianças perdidas.

Diz-se, por vezes, que o socialismo ataca a família, o que se baseia em pouco mais que no acidente de alguns socialistas apoiarem o amor livre. Eu já fui socialista, não sou mais, e em momento algum eu acreditei no amor livre. É verdade, acredito, que em um sentido amplo e inconsciente o socialismo de Estado encoraja a arrogância coercitiva de que venho tratando. Mas se é verdade que o socialismo ataque a família na teoria, é muito mais verdade que o capitalismo a ataca na prática.

É um paradoxo, mas um fato puro e simples, que as pessoas nunca reparam em algo se sua existência é prática. Homens que apontariam uma heresia calam-se diante de um abuso. Quem quer que duvide deste paradoxo deve imaginar os jornais imprimindo, do lado da Lista de Honrarias, uma lista de preços de baronatos e títulos de cavalheiro, ainda que todos saibam que eles são vendidos e comprados.

A fábrica está destruindo a família na prática, e não precisa depender de nenhum pobre teórico enlouquecido que sonhe em destruí-la na teoria. O que a destrói não é nada tão plausível quanto o amor livre, sim algo que poderia ser descrido como o medo forçado. É uma punição econômica, mais temível que a punição jurídica, o que ainda nos pode levar à escravidão como única segurança.

Desde seus primeiros dias na floresta, este agrupamento humano teve que lutar contra monstros selvagens, e agora está lutando contra máquinas selvagens. Ele só conseguiu sobreviver então, e só conseguirá sobreviver agora, através de uma forte santidade interna, um juramento tácito ou uma dedicação mais profunda que a da cidade ou da tribo. Mas ainda que esta promessa tenha sempre estado presente, em um dado momento pivotal da nossa história ela tomou uma forma especial, que tentarei esboçar no próximo capítulo. Este ponto pivotal foi a criação da Cristandade pela religião que a criou. Nada destruirá o triângulo sagrado, e até mesmo a Fé cristã, a mais espantosa revolução que já aconteceu nas mentes, serviu apenas, num certo sentido, para virar de cabeça para baixo este triângulo. Ela levantou um espelho místico em que a ordem das três coisas foi revertida, e acrescentou uma Sagrada Família, composta de filho, mãe e pai, à família humana composta de pai, mãe e filho.