G.K. Chesterton
Publicado originalmente pela The American Chesterton Society
Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo
"O homem é confortado, sobretudo, por paradoxos"
O livro de Jó é, dentre os livros do Antigo Testamento, tanto um enigma filosófico quanto um enigma histórico. É o enigma filosófico que nos interessa numa introdução como esta; assim, dispensemos umas poucas palavras numa explicação geral ou num alerta a respeito do aspecto histórico. Há muito sobrevivem controvérsias sobre que partes desse épico pertencem ao esquema original e quais partes são interpolações de datas muito posteriores. Os doutores discordam, como é do ofício dos doutores; mas, no geral, a tendência da investigação tem sido sempre na direção de sustentar que as partes interpoladas, caso o sejam, são o prólogo e o epílogo, que estão em prosa, e possivelmente o discurso do jovem que faz uma apologia ao final. Não sou competente para decidir tais questões.
Qualquer que seja a decisão a que o leitor chegue a respeito delas, há uma verdade geral a ser lembrada concernente a isso. Quando você lida com uma criação artística antiga, não suponha que haja algo negativo no fato de que ela tenha crescido gradualmente. O livro de Jó pode ter crescido gradualmente exatamente como a Abadia de Westminster cresceu gradualmente. As pessoas que escreviam antigas poesias populares, como as pessoas que construíram a Abadia de Westminster, não davam tanta importância à data real ou ao real autor de sua criação, importância esta que é uma criação do quase insano individualismo dos tempos modernos. Podemos colocar de lado o caso de Jó, como um caso cheio de complicações religiosas, e analisar um outro, digamos o caso da Ilíada. Muitos têm afirmado a fórmula característica do moderno ceticismo, que Homero não foi escrito por Homero, mas por outra pessoa com o mesmo nome. Da mesma forma, tem sido afirmado que Moisés não foi Moisés, mas outra pessoa chamada Moisés.
Mas a coisa a ser realmente lembrada na questão da Ilíada é que se outras pessoas, de fato, interpolaram passagens da obra, a coisa não criou o mesmo sentimento de choque que teria criado tal procedimento nestes tempos individualistas. A criação de um épico tribal era, de certo modo, considerado um trabalho tribal, como a construção de um templo tribal. Acredite, se lhe apetecer, que o prólogo e o epílogo de Jó e o discurso de Eliú são coisas inseridas depois da composição do trabalho original. Mas não suponha que tais inserções tenham o caráter espúrio e óbvio que teriam quaisquer inserções num livro moderno e individualista ...
Sem entrar nas questões de unidade, como entendidas pelos acadêmicos, podemos falar do enigma acadêmico de que o livro tenha unidade, no sentido de que todas as grandes criações tradicionais tenham unidade; no sentido de que a Catedral de Canterbury tenha unidade. E o mesmo é amplamente verdadeiro a respeito do que chamei de enigma filosófico. Há um sentido real em relação ao qual o livro de Jó se diferencia da maioria dos livros incluídos no cânon do Antigo Testamento. Mas, aqui novamente, estarão equivocados aqueles que insistem na falta completa de unidade. Estão equivocados os que sustentam que o Antigo Testamento é uma simples coleção de livros; que ele não tem consistência e objetivo. Quer o resultado seja alcançado por uma verdade espiritual sobrenatural, quer por uma tradição nacional estável, ou meramente por uma engenhosa seleção posterior, os livros do Antigo Testamento têm uma muito perceptível unidade ...
A idéia central de grande parte do Antigo Testamento pode ser chamada de idéia da solidão de Deus. Deus não é somente o principal personagem do Antigo Testamento; Deus é propriamente o único personagem do Antigo Testamento. Comparado com sua clareza de propósitos, todas as outras vontades são pesadas e automáticas, como aquelas dos animais; comparados com Sua realidade, todos os filhos da carne são sombras. Continuamente a nota é tocada, “Com quem tomou Ele conselho” (Is. 40:14). “Eu pisei sozinho no lagar, e nenhum homem entre os povos estava comigo” (Is. 63:3). Todos os patriarcas e profetas são meramente seus instrumentos ou armas; pois o Senhor é um homem de guerra. Ele usa Josué como um machado ou Moisés como uma régua. Para Ele, Sansão é somente uma espada e Isaias uma trombeta. Supõe-se que os santos da cristandade são como Deus, como se fossem pequenas estatuetas Dele. O herói do Antigo Testamento é comparável a Deus assim como um martelo é comparável ao carpinteiro. Esta é a chave principal e característica das escrituras hebraicas como um todo. Há, de fato, nessas escrituras inumeráveis exemplos de um tipo de humor áspero, agudas emoções, e poderosa individualidade, que não são desejáveis nas grandes obras primitivas em prosa ou em poesia. No entanto, a principal característica permanece: o sentimento de que não somente Deus é mais forte que o homem, não somente Deus é mais secreto que o homem, mas que Ele significa mais, que Ele sabe mais o que Ele está fazendo, que comparado a Ele, temos somente incerteza, irracionalidade e a vadiagem das bestas que perecem. “Ele é o que está sentado sobre a redondeza da terra, e os habitantes dela são como gafanhotos” (Is. 40:22). Quase podemos afirmar o seguinte. O livro insiste tanto na personalidade de Deus que ele quase insiste na impessoalidade do homem. A menos que esse gigantesco cérebro cósmico tenha concebido alguma coisa, esta coisa é incerta e vazia; o homem não tem tenacidade suficiente para assegurar sua continuidade. “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente se desvela a sentinela” (Sl. 127:1).
Em todos os outros lugares, então, o Antigo Testamento positivamente regozija-se na obliteração do homem em comparação com o propósito divino. O livro de Jó permanece solitário porque o livro de Jó pergunta definitivamente: “Mas, qual é o propósito de Deus? Ele vale mesmo o sacrifício de nossa miserável humanidade? É claro que é fácil anular nossa própria e desprezível vontade por uma vontade que seja mais forte e mais gentil. Mas é ela maior e mais gentil? Deixemos Deus usar Seus instrumentos; deixemo-Lo quebrar Seus instrumentos. Mas o que Ele está fazendo e para que estamos sendo quebrados?” É por causa desta questão que temos de atacar, como um enigma filosófico, o enigma do livro de Jó.
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