Por G. K. Chesterton
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1. HOMEM NÃO PRÁTICO, PRECISA-SE
Há uma imagem filosófica popular que caracteriza as infindáveis e inúteis discussões dos filósofos; refiro-me à questão sobre quem teria aparecido primeiro: a galinha ou o ovo? Não tenho bem a certeza de que a questão seja tão fútil assim, se bem a compreendermos. Não tenho aqui que tratar dessas profundas questões teológicas e metafísicas, das quais o dilema da galinha e do ovo é frívolo mas feliz exemplo. O materialismo evolucionista está representado apropriadamente na visão de todas as coisas surgindo de um ovo, vago e monstruoso germe oval, auto-posto por acidente. A outra escola de pensamento, sobrenatural (à qual pessoalmente me incluo), não será muito mal representada pela idéia de que este nosso mundo arredondado não passa de um ovo chocado por uma ave sagrada e não gerada: a pomba mística de que falam os profetas. É contudo para função muito mais humilde que eu aqui invoco a tremenda potência de tal distinção. Esteja ou não o pássaro vivo no início da nossa cadeia mental, é absolutamente necessário que o esteja no final da dita cadeia. A ave é o nosso alvo. Não para espingardas, mas para ser tocada com a varinha de condão criadora da vida. O essencial para pensarmos acertadamente é lembrarmo-nos de que o ovo e o pássaro não devem ser considerados como ocorrências cósmicas de igual importância, sucedendo-se uma à outra por toda a eternidade. Não as convertamos em mero padrão ovo-pássaro como o modelo “arco-e-flecha”. Um é meio, o outro, fim; situam-se em mundos mentais diferentes. Pondo de lado as complicações de incluí-lo na mesa do café da manhã, em princípio, o ovo existe unicamente para produzir o pinto. Mas o pinto não existe apenas para vir, mais tarde, a produzir outro ovo. Pode existir também para se divertir, para louvar a Deus, ou até para sugerir idéias a algum dramaturgo francês¹. Sendo uma vida consciente, tem ou pode ter um valor pessoal. Pois bem, a nossa política moderna está cheia de ruidoso esquecimento; esquece-se de que a produção daquela vida feliz e consciente é, apesar de tudo, a finalidade de todas as complexidades e compromissos. Falamos apenas de homens úteis e instituições que funcionam, isto é, estamos a pensar em galinhas que ponham mais ovos. Em vez de procurar alimentar a nossa ave ideal, a águia de Zeus, o cisne de Avon, ou seja lá o que for, falamos integralmente em termos processuais e embriogenéticos. O processo em si, separado do seu objetivo divino, torna-se duvidoso e até mórbido; o veneno entra no embrião de tudo; as nossas políticas tornam-se ovos podres.
O idealismo consiste apenas em considerar tudo na sua realidade essencial. Idealismo significa tão somente que devemos considerar um atiçador, no que diz respeito a avivar as brasas e a fazer borralho, antes de considerar a sua adequação ao espancamento das esposas. Quanto ao ovo, devemos considerá-lo, primeiro, para a criação prática de galinhas; só depois decidiremos se é suficientemente mau para servir na política. Bem sei que a busca primária da teoria (ou seja a procura de uma finalidade) nos expõe à banal acusação de tocar lira enquanto Roma arde. Certa escola, representada por Lord Rosebery, procurou substituir os ideais morais ou sociais, que até então constituíram a base da toda a política, por uma conferência geral organizando completamente o sistema social, o que lhe mereceu a alcunha de eficiência. Não estou seguro a respeito da doutrina secreta desta seita na matéria em causa mas, tanto quanto pude apurar, eficiência significa que temos de descobrir tudo acerca de uma máquina exceto aquilo para que ela serve. Daqui surgiu uma das mais singulares fantasias do nosso tempo: a de que, quando as coisas vão mal, é preciso um homem prático. Estaríamos bem mais perto da verdade se disséssemos que quando as coisas vão muito mal precisamos de um homem não-prático. Pelo menos, com certeza, precisamos de um teórico. Homem prático quer dizer aquele habituado às simples práticas do dia-adia, á maneira como as coisa funcionam vulgarmente. Quando as coisas não andam, do que se precisa e de um pensador, isto é, de um homem que tenha uma doutrina pela qual as coisas devem correr. É disparate tocar lira quando Roma arde, mas há toda a razão para que se estude hidráulica mesmo durante o incêndio.
É, portando, necessário deitar fora o agnosticismo pessoal quotidiano e tentar rerum cognoscere causa. Se o seu avião está ligeiramente indisposto, um homem habilidoso pode repará-lo, mas se está gravemente enfermo, o mais natural é que seja necessário desencantar de uma universidade ou de um laboratório um velho professor distraído, cabeça de matagal encanecido, para analisar o mal. Quanto pior for o estrago, mais cabelos brancos e mais distração do teórico serão necessários para solucionar o problema. Em alguns casos extremos, ninguém, a não ser o homem (provavelmente louco) que inventou a nossa aeronave, poderá talvez dizer de que avaria se trata.
Eficiência, evidentemente, é palavra fútil, pela mesma razão que são fúteis expressões com homem forte, força de vontade e super-homem; quer dizer: é fútil porque apenas concerne a ações depois de praticadas. Não existe filosofia para incidentes antes deles acontecerem. Não há, pois, liberdade de escolha. Qualquer ato só é bem ou mal sucedido depois de realizado: ao iniciá-lo, o que tem de ser, in abstracto, é ou bom ou mau. É impossível apostar no vencedor, pois enquanto apostamos ainda não o é. Também não há combate ao lado do vencedor; combatemos para determinar de que lado ficará a vitória. Se tal operação foi bem sucedida foi por ser eficiente. Se um homem é assassinado, o assassino foi eficiente. O sol dos trópicos pode ser eficiente na produção de povos indolentes, da mesma forma que pode ser eficiente o tirânico contra-mestre do Lancashire na formação de homens enérgicos. Maeterlinck é tão eficaz no ato de encher um homem com estranhos frêmitos espirituais, como os senhores Crosse & Blackwell em empanturrar esse homem com doces de frutas. Lord Rosebery, como cético moderno que é, prefere provavelmente os frêmitos espirituais. Eu, como cristão ortodoxo, prefiro as compotas, mas qualquer uma das operações só será eficaz depois de efetuada e ineficiente antes de o ser.
O homem que pensa muito em sucesso tem de ser o mais dorminhoco dos sentimentais por ter sempre de olhar para trás. Se apenas quer vitórias, terá de chegar sempre atrasado à batalha. Para o homem de ação, só o idealismo serve. Precisar esse ideal é, de longe, assunto mais prático e urgente do que quaisquer planos ou propostas imediatas, na perturbada Inglaterra de hoje. O caos existente é devido, precisamente, a uma espécie de esquecimento geral de tudo o que originalmente aspiravam os homens. Ninguém pede o que deseja; todos pedem o que fantasiam poder obter. Cedo o mundo esquecerá o que o homem pretendia primeiramente e o próprio homem, depois de uma vida política bem sucedida e vigorosa, também o esquecerá. O resultado é um motim extravagante de second bests, um verdadeiro pandemônio de pis aller. Ora esta espécie de condescendência não só impede qualquer consistência heróica, como também impede qualquer entendimento realmente prático. É impossível determinar-se o ponto médio entre dois pontos que não estão fixos. Podemos fazer um acordo entre dois litigantes que não conseguem ambos tudo que pretendem; mas não será possível se eles não nos disserem o que querem. O gerente de um restaurante ficaria muito mais satisfeito se cada freguês fizesse os seus pedidos delicadamente, quer se tratasse de íbis guisado ou de cozido de elefante, em vez de se sentar, de cabeça entre as mãos, mergulhado em cálculos aritméticos sobre a quantidade de comida que o edifício pode conter. Alguns de nós têm sofrido com certa espécie de senhoras que, pela sua perversa falta de egoísmo, dão muito mais trabalho do que as egoístas, quase demandantes do prato indesejado e ansiosas pelo pior lugar da casa. Outros conheceram reuniões ou grupos de passeio cheios de fervorosas abnegações alardeadas. Por razões muito mais sutis do que as de tais admiráveis mulheres, os nossos práticos da política mantém a mesma confusão derivada de idênticas dúvidas sobre as suas exigências reais. Nada é mais impeditivo de um acordo do que um rosário de pequenas capitulações. Por todos os lados nos desnorteiam políticos campeões da educação laica que, no entanto, julgam inútil trabalhar para a conseguir. Desejam a proibição total, mas sabem que a não pedirão. Lamentam a obrigatoriedade do ensino, mas mantêm-na resignadamente. Querem a propriedade para os agricultores, mas votam por qualquer outra coisa. É este ofuscante e viscoso oportunismo que entrava tudo. Se os nossos estadistas fossem visionários, poder-se-ia fazer qualquer coisa de prático. Se pedíssemos qualquer coisa abstrata, talvez algo se obtivesse de concreto. Tal como as coisas estão, não só é impossível obter-se o desejado, como impossível é obter-se qualquer parte dele, por que ninguém o pode assinalar claramente como se faz nos mapas. Aquela clareza e até rigorosa qualidade do velho regatear extinguiu-se totalmente. Esquecemo-nos de que a palavra compromisso contém, entre outros elementos, a rígida e sonora palavra promessa. Moderação não significa vacuidade; é termo tão preciso como perfeição. O ponto médio e tão fixo como os extremos. Se um pirata me obrigasse a caminhar na prancha, seria inútil propor-lhe, como solução de compromisso, que me deixasse andar apenas até uma distância razoável sobre a dita tábua. É precisamente sobre qual seria essa distância razoável que o pirata e eu não nos poderíamos pôr de acordo. Há um requintado ponto de inflexão depois do qual, matematicamente, a prancha báscula. O meu bom senso acaba justamente aí. Mas o ponto em si é tão rigoroso como um diagrama geométrico e tão abstrato como qualquer dogma teológico.
2. O ERRO CLÍNICO
O moderno livro de investigação sociológica tem uma estrutura assaz rigidamente definida. Em regra, abre com uma análise acompanhada de estatísticas, quadros populacionais, retrocesso da criminalidade entre os Congregacionalistas, incremento da histeria na classe policial e outros fatos devidamente confirmados. Fecha com um capítulo normalmente intitulado “A solução”. Este método cuidadoso, sólido e científico, é o culpado, quase integralmente, de nunca se encontrar a “solução”. Este método clássico de pergunta e resposta é um disparate; o primeiro grande disparate da sociologia. Pede-se-lhe sempre que declare a doença antes de descobrir o tratamento, quando a própria definição e dignidade do homem em matéria social exige que encontremos, realmente, o remédio antes da doença.
Este engano é um dos cinqüenta sofismas originados pela moderna loucura das metáforas biológicas e corporais. É cômodo falar-se do organismo social como cômodo é falar-se do Leão Britânico, mas a Grã-Bretanha é tanto organismo como leão. Desde o momento em que começamos a dar a uma nação a unidade e a simplicidade de um animal, começamos também a pensar selvaticamente. Pelo fato dos homens serem bípedes não se conclui que cinqüenta homens formem um centípede. O resultado foi, por exemplo, o estarrecedor absurdo de falar eternamente de jovens nações e nações moribundas, como se uma nação tivesse duração de vida fisiologicamente determinada. Assim, haverá gente a falar da Espanha como nação que entrou numa senilidade final; até poderia dizer que tem os destes a cair. Outros dizem que em breve o Canadá produzirá uma literatura, o que corresponderia afirmar que esse país esta deixando crescer o bigode. As nações são formadas por gente: a primeira geração pode ser de decrépitos e a décima milésima, uma geração vigorosa. Outros usos do mesmo sofisma conduzem muitos a ver no aumento de área das possessões nacionais um puro acréscimo de sabedoria e grandeza perante Deus e os homens. Tais pessoas, na realidade, não conseguem aplicar sequer o paralelismo com o corpo humano por falta de sutileza. Não perguntam se o Império está aumentando de altura na juventude ou engordando na velhice. De todas as ocasiões de erro desta mania fisiológica a pior é, porém, a que nos cai debaixo dos olhos: o hábito de descrever exaustivamente uma doença social e propor, a seguir, uma droga também social.
Falemos, primeiro, da doença nos casos de fratura do corpo, por esta excelente razão: embora possa haver dúvidas sobre a maneira por que se deu aquela fratura física, não há dúvida nenhuma sobre a forma do corpo a restaurar. Nenhum médico se propõe produzir uma nova espécie de homem, alterando a disposição dos olhos ou dos membros do paciente. Do hospital podem, por necessidade, mandar um homem para casa com uma perna a menos, mas nunca, num gesto de criação delirante, dar-lhe alta com uma perna a mais. A ciência médica contenta-se com o corpo humano normal e apenas procura recompô-lo.
Mas a ciência social está altamente descontente com a alma humana normal e tem um sortido completo de almas fantasiadas para vender. O homem, como idealista social, afirmará: “Estou casado de ser puritano; quero ser pagão!”; ou “Para além desta caliginosa provação do individualismo, vejo o refulgente paraíso do coletivismo!”. Pois bem, nos doentes do corpo não há tais divergências sobre o ideal a atingir. O doente pode querer ou não querer quinino, mas o que quer certamente é saúde. Ninguém diz: “Estou cansado desta dor de cabeça; quero uma dor de dentes!”, ou: “A única coisa para esta gripe russa é uma varicela germânica!” ou ainda “Através desta caliginosa provação catarral, avisto o refulgente paraíso dum reumatismo!”. Todavia, a dificuldade dos nossos problemas públicos está toda em que certos homens procuram curas que outros homens considerariam como doenças ainda piores e oferecem ideais de saúde que outros se obstinam em classificar de estados patológicos. Mr.Bello disse uma vez que estaria tanto de acordo em ceder o direito de propriedade como em ceder os próprios dentes. Para Mr. Bernard Shaw o conceito de propriedade não é um dente, mas sim uma dor de dentes. Lord Milner tentou sinceramente introduzir na Inglaterra a eficiência alemã; e muitos ingleses dariam boas vindas às varicelas alemãs. O Dr. Saleeby gostaria francamente que cultivássemos eugenia mas eu prefiro cultivar o reumático.
Este é o ponto em suspensão, o fato dominante nas modernas discussões sociais: a questão não diz meramente respeito às dificuldades, mas às finalidades. Estamos de acordo quanto ao mal, mas é quanto ao bem que nos esgatanhamos. Todos admitimos que uma aristocracia inativa é prejudicial, mas isto não obriga a que todos aceitem como benéfica uma aristocracia ativa. Todos nos sentimos incompatibilizados com um clero irreligioso, mas alguns de nós se enfureceria6m enojados só de pensar num clero verdadeiramente religioso. Causa indignação geral a eventual fraqueza do nosso exército, mesmo aos que se indignariam ainda mais de o ver fortalecido. O problema social é exatamente o oposto do problema médico. Não estamos, como os médicos, em desacordo quanto à causa precisa da doença, na medida em que concordam no que se refere à natureza da saúde. Nós, pelo contrário, concordamos todos na insalubridade da Inglaterra, mas metade de nós não quereria sequer sonhar com o que a outra metade chamaria de saúde portentosa. O descrédito público é tão grande e pestilencial que é capaz de congraçar todos numa espécie de unanimidade fictícia. Esquecemo-nos de que, ao concordarmos em que a lei é violada, não estamos de acordo quanto ao seu emprego. Mr. Cadbury e eu estaríamos de acordo sobre as tabernas imorais, mas seria precisamente à porta de uma taberna moral que começaria a nossa dolorosa rixa
pessoal.
É por tudo isto que afirmo a grande inutilidade do método sociológico corrente: o que primeiro disseca a pobreza abjeta ou catologa a prostituição. A todos horroriza a pobreza abjeta, mas seria outro assunto se começássemos a discutir a pobreza digna e independente. Todos condenamos a prostituição, mas nem todos aprovam a pureza. A única maneira de discutir o mal social é obter primeiramente o ideal social. Todos vemos a loucura nacional. Mas o que é a sanidade nacional? Chamei a este livro “What is wrong with the world”, mas o título, algo barroco, atinge apenas uma verdade precisa: o disparate é nós não pedirmos o que é certo.
¹Refere-se a Edmond Rostand que, na peça Chantecler (1910), coloca um galo como protagonista.
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